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A interpretação humana da lógica divina

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.09.08

 

The End of the Affair. Inclinei-me, depois de o ver, para esta ideia essencial: a interpretação humana da lógica divina, pois aqui vemos uma forma muito intensa e absoluta de se relacionar com o divino.

Mas também podia ser: cuidado com as promessas que fazemos no plano extraordinário. Uma promessa pode ficar registada para sempre num lugar a que dificilmente podemos ter acesso. Impossível desprogramar.

E também podia ser: não se pode agarrar uma ave em pleno vôo. Agarrar, para natureza masculina; vôo, para natureza feminina. É assim que as duas naturezas nos são aqui reveladas, assim mesmo, tão diversas!

 

2ª Guerra Mundial. Este pormenor é muito importante, porque vai definir o fim de um relacionamento amoroso. Mas antes, vemos uma mulher que vive a tranquilidade de um casamento-amizade. E quando o amor surge, o amor irá impor-se. Ele, um escritor de personalidade intensa e absorvente.

O amor não é prudente. Um dos seus encontros é subitamente perturbado por um bombardeamento e o prédio onde estão é atingido. Ele saíra do quarto para ver o que se passa e é apanhado em pleno vão das escadas, caindo de uma altura considerável. Quando se aproxima dele, desesperada, ela vê-o imóvel, pálido, sem vida.

Volta ao quarto, ajoelha-se e pede o impossível. Que ele viva! Mas para pedir esse impossível segue a lógica da promessa que envolve o maior sacrifício possível: se ele viver, renuncia a ele, ao amor.

Esta é a forma dela se relacionar com o divino: há sempre um preço elevado a pagar pelo amor e pela felicidade.

 

E o impensável acontece. Ele surge ali, ao seu lado... atordoado, balbucia o seu nome... E ela percebe. E o que percebe é: Deus dá-lhe a vida, a ele, em troca da sua, dela, razão de viver, da possibilidade do amor.

Ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido.

A promessa está feita. E num tal momento de aflição, fica impressa no tal lugar a que dificilmente voltará a ter acesso, para a desprogramar. Quando ele surge ali, vivo, é toda uma outra realidade, uma outra dimensão, do inexplicável, do irreal.

 

Interrompo aqui por momentos para assimilar e organizar melhor as ideias. Este é um dilema filosófico que me fascina pela sua dificuldade. É que ainda estou muito longe de uma saída compreensível...

 

... Onde ia eu? Ah, sim... Ela ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido. Um turbilhão de sentimentos e emoções invade-o, acentuando o seu lado obsessivo e possessivo. Inicialmente quer apenas perceber, para poder aceitar. Aquela corrida, a coxear da queda, debaixo de uma chuva constante, atrás do carro... é de partir o coração... O coração (dele) fecha-se, petrifica-se. A dor da perda, sem compreender a razão, torna-o frio e cruel.

Só muito mais tarde, quando lhe surripiar o diário (dela), uma prova, um facto concreto a que se agarrar (comportamento tão masculino!) é que percebe que o que realmente se passou ocorreu numa outra realidade, a lógica de uma interpretação da lógica divina. Uma forma absoluta de se relacionar com o divino. Sim, ele percebe, mas não aceita.

 

Voltarão a encontrar-se. Ela dir-lhe-á que não tem forças para resistir ao amor. Mas sabe qual o preço a pagar: o fim, a saída de cena.

Os dois homens acompanharão esse fim juntos. Ambos sofrem, mas cada um à sua maneira. Um, porque nunca concebeu a sua vida sem ela e acha que não vai suportar a dor (o marido). O outro, talvez para amortecer o impacto da dor, alimenta a revolta: contra Deus, contra a vida, contra o mundo.

Li algures que as personagens que aqui nos despertam mais simpatia e compaixão são a mulher e o marido. Talvez... mas aquela corrida desesperada, sem nada compreender, e depois, mesmo tendo percebido, sem conseguir aceitar, toda essa revolta...

 

Bem, ainda não é desta que me aproximo de uma saída para este dilema... das condições da promessa... para pedir o impossível... Nova interrupção, pois...

 

... A ver se é desta. Voltemos às condições da promessa (dela): para que ele viva, compromete toda a sua vida a partir daí, a possibilidade do amor. Podemos questionar: Mas então porque não pediu simplesmente que ele viva?

Será que me aproximo de uma saída plausível se disser que o seu pedido, de tão extraordinário, na dimensão divina, teria de ser completamente e inequivocamente altruísta? De uma total abnegação? Teria de ser apenas por ele, para que ele possa viver, para que a sua vida lhe seja devolvida, e não para si mesma? E que essa era a condição da sua possibilidade?

É como se tivéssemos interiorizado estes princípios: nada nos é dado que não tenha de ser devolvido (a vida, em primeiro lugar); tudo tem um preço e nada é garantido (os imponderáveis); pedir o impossível só abnegadamente.

 

 

 

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publicado às 17:49


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